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Tag Archives: movimentos sociais

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É curioso como neste momento de crise, entramos em contato com as memórias de outros períodos críticos da história. Diante de algumas situações nos últimos meses, tenho uma estranha sensação de que estamos passando por um novo giro na história, e como numa espiral algumas coisas parecem uma repetição. Porém, já estamos noutro lugar, tudo é diferente.

Nessas rememorações tenho pensado muito do final dos anos 90. Governos neoliberais e suas políticas avançavam em toda parte, mas encontravam alguma resistência social. Quem se lembra das lutas contra a ALCA? Dos primeiros Forum Sociais Mundiais (antes de se tornarem uma grande feira)? Dos diversos movimentos sociais que se multiplicavam Brasil afora…Onde foi parar toda aquela energia?

Naquele momento, a memória da derrocada da experiência soviética ainda era um tema na pauta, fala-se muito de crise sistêmica do capitalismo e proliferavam em toda parte iniciativas de economia social, autogestão econômica, cooperativismo, entre outras. Havia todo um debate sobre alternativas práticas ao capitalismo que curiosamente parece que perderam a força diante de governos que em toda America Latina executaram uma agenda paradoxalmente “progressista” (péssimo termo). Porém, ainda que silenciosamente, tudo aquilo segue sendo feito.

Dentre esses reencontros que tive nos ultimos meses, um deles é com as discussões sobre autogestão, economia social/solidária, moedas alternativas. Tema com o qual estive muito envolvido e que por diversas razões fui me distanciando. Acho curioso ver como ele retorna agora. Seria apenas mais um sintoma da crise? E para mim, é aqui que este reencontro dá uma reviravolta interessante pois se recombina com outros temas com os quais estou envolvido hoje em dia. Mas o vocabulário agora é outro. Falamos em soberania tecnológica, produção do comum, tecnopolíticas, ecologia de práticas e saberes…

Só para citar um exemplo. Recentemente, comecei a acompanhar a criação de um nó-regional da FairCoop (https://fair.coop). A discussão que eles fazem sobre moedas alternativas é bem interessante. Utilizam uma criptomoeda inspirada no bitcoin porém modificada por protocolos sociais que inserem a colaboração como variável na geração de valor. Há toda uma discussão ali sobre autonomia, autogestão, desenvolvimento local/comunitário, sustentabilidade, internacionalismo.

Em seguida, vou atrás de alguns sites antigos e redes sociais abandonadas. Numa deriva no ciberespaço, como nos tempos em que a livre navegação era possível (quem se lembra que utilizavamos o termo “navegar” e éramos internautas, antes de virarmos usuários), encontro alguns grupos interessantes, como o bom e velho Znet (https://zcomm.org). Que emoção! Site simples, wordpress com cara de puro html.

Fiquei me perguntando, será que os outros grupos ainda estão por aí? Os meios  de comunicação entre os movimentos que pegaram o início da internet transformaram-se drasticamente nesses ultimos 10 anos (o Youtube é de 2006!). Tivemos um processo paradoxal. De um lado a mulitiplicação dos canais (email, redes sociais, sms, whatsapp, telegram, e em cada um deles grupos e subgrupos) dando a impressão que construíamos um rizoma, com arquitetura distribuída. Mas não, era pura dispersão. De outro, novas camadas de hierarquização e centralização que modulam algoritmicamente toda nossa interação, submetida a critérios mercantis e à vigilância estatal e corporativa. É o capitalismo de vigilância (Shoshana Zuboff); a sociedade de controle (Deleuze)….enfim, formas renovadas de sujeição social e servidão maquínica.

Ao invés de nos organizarmos de maneira distribuída, somos organizados em nossa aparente dispersão pela capacidade de centralização desses serviços.
É incrível como o Facebook destrui nosso ecossistema digital. Pra ser sintético: o Facebook e todos os condomínios digitais correlatos, destruiram a internet como uma possível cidade cosmopolita. Essas corporações são hoje parte do nosso problema.

Por fim, neste pequeno passeio fui me dando conta de tantas coisas, de tantos mundos que foram ficando para trás. Tal sensação é reforçada por todos os acontecimentos políticos de 2016 (golpe parlamentar etc), que de maneira muito direta chamaram nossa atenção para transformações profundas que estão ocorrendo em nossas sociedades muito abaixo do nosso radar. A barbárie é só o cotidiano mesmo. Mas é ai também que surgem as criações e as longas ondas com grande capacidade de propagação. Nos ultimos tempos, apenas ficou mais visível uma nova e assustadora topografia que estava sendo lentamente construída.

Isso me faz pensar na cozinha, no trabalho de manutenção e sustentação da vida. Talvez, a tecnologia mais necessária neste momento seja mesmo as tecnologias organizacionais e toda a lentidão necessária para fazer comunidade, para produzir o comum em comum. Mas não o antigo comunitarismo, nem os comunismos e socialismos. Serão outras criações capazes de aprender com todas essas formas, e também com o capitalismo.

Fico com uma sensação de “back to basic”. Não confundir com “um retorno às bases”. É outra coisa, é cuidar do básico mesmo, a começar pela capacidade do encontro com o outro. Quais são as infraestruturas que precisamos para dar suporte às formas de vida que desejamos?

Como alguns emails trocados entre os professores da EFLCH/Unifesp acabam circulando para além das listas em que foram originalmente escritas, vou adotar a prática de publicizar algumas mensagens que escrevo em contextos de crise. Evidentemente, farei isso levando em conta a não exposição de terceiros que por ventura estavam envolvidos na conversação dentro da lista. A mensagem abaixo foi escrita no âmbito de uma discussão entre professores sobre a ocupação estudantil realizada no segundo semestre de 2017, durante os protestos contra a PEC241/PEC55.
——– Forwarded Message ——–

Subject: Re: [Docentes.EFLCH] detalhes do processo negociação c/ ocupação
Date: Thu, 1 Dec 2016 13:11:10 -0200
From: Henrique Parra
Car@s,

A comunicação pela internet costuma gerar muito ruído. São diversas as
cartas produzidas pelo Movimento de Ocupação, além de posts em
grupos/paginas do FB etc, gerando facilmente confusão nas
interpretações. O mesmo acontece com nossas mensagens em diferentes
canais. A conversa presencial é sempre melhor para minimizar mal
entendidos. Como sabem, o trabalho da escrita e interpretação textual é
uma tarefa infinita. Ainda assim, quero compartilhar mais um relato e
mais um ponto de vista.

Pelas mensagens enviadas pelos ocupantes entendo que o campus estará
reaberto a partir desta sexta-feira, e que nós professores poderemos nos
reunir com nossas turmas a partir de segunda-feira. A Congregação se
reunirá na segunda-feira de manhã para analisar a situação. Também foi
chamada uma reunião dos professores para esta sexta-feira (pelo chamado
entendo que não se trata de uma assembléia), efetivando a reabertura do
campus e também criando uma possibilidade de encontro presencial entre
nós. Este é o cenário que vejo para o curto prazo.

Neste semestre ministro a disciplina do estágio supervisionado III.
Muitos dos alunos estão com contratos firmados com museus, ONGS,
escolas. Em razão de demandas dos estudantes (devido a dinâmica do campo
do estágio) realizei ontem supervisão individual no CEU Pimentas,
utilizando o espaço da biblioteca. Um bom numero de estudantes
compareceu, conforme o agendamento que realizamos. Outros não puderam ou
não precisaram vir (e me enviarem suas justificativas).

Em um intervalo nas supervisões fui ao campus onde acontecia a reunião
da D.A., professores e os ocupantes. Não fiquei para a reunião, mas
queria ir lá para prestar solidariedade aos colegas professores que
tentavam duramente construir alternativas. Fiquei alguns minutos e logo
voltei ao CEU. Na saída encontrei com os estudantes que estavam chegando
de onibus naquele momento de Brasília. Conversei com eles e ouvi os
relatos sobre a experiência da manifestação e da violenta repressão
policial que sofreram por lá. Também manifestaram preocupação com a
busca por saídas para a ocupação.

Minha impressão da situação: os problemas do nosso campus refletem
claramente todas as dificuldades políticas que temos neste momento
histórico. Não há grupos/posições homogênas, planos de curto ou longo
prazo, nem canais institucionais com ampla capacidade de operação. As
pessoas (individualmente ou em seus pequenos coletivos) estão agindo de
maneira impulsiva e falta muita capacidade de diálogo e construção do
comum, mesmo entre aqueles que parecem compartilhar os mesmos valores e
princípios ético-políticos.

Sigamos na busca por alternativas coletivas. Encontrar nossos estudantes
é a melhor maneira de desconstruir o que de fora parece ser um jogo de
posições constituídas, binárias e organizadas. Atualmente, nem
estudantes nem professores seriam capazes de produzir, de cada lado, um
documento capaz de sintetizar uma tomada de posição homogênea sobre a
situação. Infelizmente, nossos espaços de representação estão todos
corroídos (da EFLCH ao Congresso Nacional). Por isso, parece-me oportuno
a possibilidade do encontro físico para produzir um terreno minimamente
comum de entendimentos sobre o qual possamos reconstruir nossas
instituições. Não será pela força, nem por mecanismos de autoridade
externa que seremos capazes de ativar nossas frágeis instituições, muito
menos de fazer universidade.

Por fim, uma hipótese otimista diante dos problemas nacionais e locais
que enfrentamos. Talvez, possamos apostar numa capacidade de invenção e
confiança na busca por novas formas de organização e de construção
institucional. Quem sabe, no meio de todo esse caos, no qual a EFLCH
parece ser uma antena de antecipação das reconfigurações da política,
possamos gestar outras formas de fazer política. Sempre achei que os
conflitos de 2012 eram prototípicos dos problemas que estavam por vir no
cenário nacional. E eles aconteceram. De repente, agora, na borda em que
estamos, ao invés de antecipar o desmoramento (que já aconteceu Brasil
afora), possamos inspirar outras alternativas.

Há braços,

Henrique Parra

O movimento dos estudantes secundaristas em 2015 foi certamente a melhor criação política do ano. Há muito o que refletir e aprender sobre tudo o que aconteceu e continua vibrando.

A existência de centros acadêmicos nas escolas, para além de um importante direito conquistado, é um espaço relevante de aprendizado e exercício democrático. Por isso, chamou minha atenção o fato que alguns dias atrás o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria intitulada “Governo de SP vai reformular grêmios de escolas estaduais” [1]. A matéria utiliza como referência um levantamento solicitado pelo MPE sobre a existência dos grêmios nas escolas da rede estadual de São Paulo. Em síntese, o estudo mostra que muitas escolas possuem um centro estudantil, porém ele é frequentemente pouco participativo ou efetivo na sua missão representativa da comunidade escolar.

Interessante que a matéria do jornal procura estabelecer uma relação entre as ocupações das escolas e a existência frágil desses gremios estudantis. O argumento segue a seguinte premissa: se houvessem gremios estudantis ativos e bem organizados as reivindicações dos estudantes poderiam ter sido canalizadas pelas vias institucionais, e assim os problemas seriam resolvidos pela administração escolar. Na ausência de espaços de representação institucional o movimento dos estudantes torna-se alvo fácil de grupos políticos extra-estudantis, ou então as reivindicações tornam-se mais conflituosas, levando a resultados inesperados como a ocupação das escolas. Nas palavras da gestora responsável pelos gremios na Secretaria Estadual de Educação: “Uma gestão participativa mais forte cria uma relação muito importante com a comunidade, alunos, professores e família. A escola fica mais calma”.

A reportagem funciona como ótimo recurso reflexivo sobre a natureza  ambígua desses grêmios estudantis.

Em primeiro lugar, como muitos dos nossos espaços de representação institucional, parte dos gremios escolares acabaram convertidos em aparelhos da gestão burocrática (quando dominados pela própria administração escolar) ou em espaços dominados por grupos políticos fortemente identidários (com bandeiras e programas prontos e desconectados da vida estudantil). Os estudantes sabem disso. Por isso, eles criaram novas agremiações que escapam à tutela dos diretores, da SEE, dos partidos e das associações estudantis tradicionais. Em suma, ao contrário do que a matéria parece sugerir, as ocupações das escolas nascem de coletivos e grêmios independentes que não sofrem de um deficit democrático. Nesses casos os estudantes estão, efetivamente, fazendo invenções democráticas exatamente onde a política estava morta porque convertida em ação gestionária.

Em segundo lugar, o que a reportagem parece esquecer é que o problema da reestruturação escolar, da forma como foi proposta, escapa à própria capacidade deliberativa de uma unidade escolar e suas instâncias internas de participação. Trata-se de uma política de Governo (G.Alckmin) muito mais ampla. Ou seja, mesmo que uma escola tivesse ótima qualidade de participação democrática, sua posição com relação à reestruturação enfrentaria a resistência das instâncias administrativas superiores. Os estudantes também sabem disso. Por isso sua luta não poderia se limitar às instâncias locais de representação.

[1] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,governo-de-sp-vai-reformular-gremios-de-escolas-estaduais,1814033

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Alana Moraes, Bruno Tarin e Jean Tible, publicaram o livro “Cartografias
da Emergência: novas lutas no Brasil”, com apoio da FES – Friedrich
Ebert Stiftung.

Cada capítulo apresenta uma iniciativa que tem fomentado novas formas de
atuação política. Participo entrevistando o Silvio Rhatto do coletivo
Saravá, falando sobre tecnopolítica e organização social.

O livro está disponível na íntegra aqui:
http://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/12092.pdf

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O jovens desejam uma outra escola, uma escola que seja um território comum de produção de novos sentidos de vida, de outras formas de experiência, de socialização e de subjetivação.
A escola pública, mais do que estatal, pode ser um bem comum, e para isso ela deve ser de todos (e não UMA escola para todos). Sua ativação como bem comum depende do permanente exercício democrático entre os estudantes, professores, pais, comunidade do entorno, gestores.

A escola pode ser um um espaço de produção de diferenças e singularidades (ao invés da escola que pretende (in)formar o cidadão, o trabalhador ou o futuro universitário).

A necessária abertura ao acontecimento, ao indeterminado, é um importante manancial para a educação. Mergulhar numa experiência, simultaneamente singular e coletiva, com todos os seus riscos, é uma grande aprendizado inventivo. Nesse momento, professores e estudantes aprendem criando.

O currículo pode ser criado de maneiras diversas. Em tempos de currículos cada vez mais predeterminados e lineares, a pletora de conhecimentos disponíveis pode oferecer trajetórias singulares de aprendizado.

A educação, como produção de novos conhecimentos e formas de vida mais autônomas, acontece nas frestas. Quando achamos que controlamos os conteúdos, os processos, as metodologias, descobrimos que o mais importante escapa a tudo isso.

A experiência democrática, diferente daquela prevista pelos espaços e dinâmicas institucionais previstas na lei, só acontece pela ação que instituí, através do dissenso um espaço de atualiza a igualdade das potências da inteligência.