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Estrutura “Guarda-Chuva” dos Projetos de Pesquisa desenvolvidos em 2015 e 2016.

 

Índice

  • 1 Apresentação
  • 2 Linhas de Pesquisa
  • 3 Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada
  • 4 Projetos de Pesquisa em andamento
  • 5 Problema Macro-Teórico
    • 5.1 Recortes teóricos
    • 5.2 Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

Apresentação

Em diferentes sociedades e em cada momento histórico, podemos estabelecer relações de interdependência entre os modos de organização social, as formas de produção/difusão de conhecimentos, as tecnologias de comunicação e as formas de exercício do poder.

Atualmente, no campo da produção/difusão de conhecimentos observamos mudanças radicais na relação com o saber, tanto na forma de acesso quanto nas próprias formas e locais de produção de novos saberes, em parte relacionadas à crescente mediação das tecnologias digitais. Simetricamente, observamos no campo político profundas transformações nos modos de ação e mediação institucional, seja na prática de grupos ativistas, movimentos sociais ou mesmo em novas individuações coletivas e modos de subjetivação política que tem emergido. Nesses dois eixos (saber-poder) há dinâmicas e problemas comuns relativos à mediação das tecnologias digitais de comunicação que nos interessa analisar.

É nesta zona de intersecção que concentramos os projetos do Pimentalab[1][2]. Mais especificamente, o programa atual de pesquisa tem como campo empírico de investigação um conjunto de práticas científicas, organizações sociais, coletivos e movimentos sociais que atuam em temas relacionados a novos modos de conhecer e se organizar mediante a utilização das tecnologias de comunicação digital. Concretamente, observamos as práticas de: grupos tecnoativistas, comunidades hackers e ciberativistas, coletivos de mídia radical/independente, pesquisadores ativistas/militantes, iniciativas de ciência cidadã/amadora e artistas que atuam sobre a relação sociedade-tecnologia.

Ao mapearmos e analisarmos um amplo conjunto de experiências procuramos identificar elementos que possam constituir uma gramática comum, um repertório partilhado de formas de ação, organização, modos de conhecer e princípios ético-políticos. A escolha de algumas dessas experiências, justamente pela forma como enunciam e tensionam certos problemas contemporâneos, permite-nos examinar transformações sociais que possuem amplo alcance. Para isso, nossa atenção estará dirigida para alguns aspectos que identificamos como transversais a essas experiências e que possuem modulações e combinações distintas em cada caso. Tais elementos tornam-se os vetores de análise para que possamos interrogar os novos problemas (teóricos e práticos) que surgem. Neste sentido, podemos destacar as seguintes temáticas como possíveis recortes para projetos de pesquisa mais específicos:

  • tecnopolítica: tecnologia e prática politica; modos de apropriação e uso de tecnologias; disputas sobre a dimensão sociopolítica da tecnologia e os efeitos do design incorporado; relação tecnologia e democracia.
  • reconfigurações da política: poder, ativismo, resistência e criação, movimentos sociais e sociedade de controle.
  • produção de conhecimentos situados e pesquisa ativista: ciência cidadã (amadora ou ativista); co-pesquisa; conhecimento rebelde; pesquisa participativa.
  • economia da informação e do conhecimento: trabalho imaterial, tensões sobre as políticas de acesso e difusão da informação, commons, produção entre pares (p2p) e capitalismo informacional.
  • linguagens e conhecimento sensível: visualidade, tecnologias de imagem, sociologia/antropologia visual; imagem e suas epistêmes; formas de comunicar e tornar apreensivel dimensões sensíveis do conhecimento.
  • metodologias de pesquisa e educação: co-pesquisa, experiência, prototipagem, metodologias participativas, educação democrática, pedagogia radical; educação expandida.
  • micropolítica e modos de subjetivação: modos de associação, organização e ação coletiva; poder, autonomia e crítica institucional.

Linhas de Pesquisa

  • Tecnopolítica e Ação Coletiva: tecnoativismo, movimentos sociais e internet, comunidades hackers, ciberpolítica, sociedade de controle, acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade, economia informacional, trabalho e capitalismo.
  • Conhecimentos Situados, Modos de Organização e suas Tecnologias: modos de organização social e micropolítica; modos de subjetivação; tecnologia e conhecimento; educação expandida, ciência cidadã/ativista; educação e pesquisa.

Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada

  • Desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais: explorar as relações entre organização, relações de poder, tecnologias de comunicação e produção de conhecimento em coletivos, movimentos sociais e organizações.
  • Metodologias para ensino, pesquisa e organização social: sociologia amadora, ensino como pesquisa, sociologia prática, educação democrática.

Projetos de Pesquisa em andamento

Tecnopolitica e Saberes Rebeldes – 2015-2016 – Apoio Ford Foundation.

Ciencia Aberta e Desenvolvimento Local – 2015-2016 – Apoio OCSDnet – Canadá.

 

Problema Macro-Teórico

Modos de Conhecer e tecnologias de comunicação: acesso à informação e participação distribuída; sociedade de controle e criação democrática
A emergencia de novas formas de produção de conhecimentos e ação coletiva através das mídias digitais é um terreno em disputa. Graças às TICS há uma combinação de: participação distribuída em redes digitais; produção infinita de dados mediante rastreabilidade de toda interação em meios digitais; convergência digital; novas informações e conhecimentos produzidos. Estamos, todavia, no contexto do capitalismo informacional e da sociedade de controle.

A lógica da participação, presente de diversas formas na experiencia politica de diversas democracias contemporaneas, manifesta-se de diferentes formas nas práticas de produção colaborativa, seja no âmbito da ciência cidadã/amadora, como nas dinâmicas sociais cotidianas cibermdiadas. Frequentemente, porém, esta participação é reduzida ou transformada num modo de governo, forma de condução da vida (biopolitica).

Como fator complementar, não podemos perder de vista que a mediação das TICS está muito concentrada nas mãos de corporações privadas. Recentemente, observamos como a colaboração estatal-corporativa serviu para a expansao da vigilância e gestão populacional em escala planetária.

Da mesma forma como nos séculos anteriores vimos o surgimento de novas ciencias (epidemiologia, economia politica…) que se combinaram a novas formas de governo, hoje estamos diante de novas formas de conhecer que ensejam novas formas de governo e controle social.

Ao delinear características que possam compor uma gramática comum a este conjunto diverso de experiências, nosso objetivo mais amplo é apreender as reconfigurações entre as dinâmicas de autonomia e resistência face às novas formas de sujeição social e servidão maquínica (Deleuze & Guattari, 2005). Indiretamente, pretendemos interrogar as possibilidades e limites para a produção de conhecimento no campo das ciências humanas através das tecnologias digitais: como delinear a tênue fronteira entre as humanidades digitais, a engenharia social, o capitalismo cognitivo e a formação da sociedade de controle?
Sub-questões e Temas

  • Relação entre tecnologias, conhecimento e prática política.
  • Nova cultura política
  • Tecnoativistas, Tecnocidadãos: novas formas de produção de conhecimento para uma nova política?
  • Relação entre ecossistema sociotécnico de comunicação (tecnologias digitais) e mudanças no regime de produção de conhecimento e de poder.
  • Tecnoativismo e acesso à informação: dilemas da abertura, segurança e privacidade.
  • Inovação Cidadã, Participação 2.0 X Coletivos tecnoativistas: tecnologias sociais entre a captura, a resistencia e a criação.
  • Ciencia cidadã, ciencia ativista, conhecimento rebelde. Qual a cultura epistêmica desses grupos? Casos de pesquisa-social, pesquisa-militante, grupos comunitários que fazem uso de TICs.
  • Movimentos sociais e uso de tecnologias
  • Educação e tecnologia: práticas inovadoras de uso de tics.
  • Participação social, democracia digital, participação cidadã.
  • Quais os repertórios, trocas de conhecimentos, modos de organização que estão fluindo de um lado para outro, dando forma a uma nova cultura política?
  • Que novas institucionalidades estão sendo gestadas?

Recortes teóricos

[1] Relação entre as culturas epistêmicas (em grupos tecnoativistas e coletivos experimentais) e a emergência de novas práticas políticas e institucionais.

Os problemas:

  • relação cultura epistemica X cultura política
  • relação tecnologia X democracia: escolhas/desenhos sociotécnicos implicam em questões políticas
  • efeitos das composições sociotécnicas (TICs) na vida social (sociabilidade, política e conhecimento).
  • relação conhecimento científico X conhecimento extra-científico: ciencia e democracia.
  • privacidade X opendata: segurança X privacidade X transparência: necessidade de maior abertura e transparencia para produzir confiança e mobilização e ter mais colaboração versus, necessidade de segurança e privacidade.
  • invisibilidade, não-compreensão da complexidade dos problemas – como tornar intelegível?
  • capitalismo cognitivo

[2] Emergência de novos atores políticos-cognitivos

  • tecnocidadãos;
  • pesquisadores ativistas, movimentos sociais engajados na produção de contra-expertise;
  • ciencia amadora, ciencia cidadã

Característivas:

  • mobilizar diferentes atores
  • pesquisa aberta/colaboração
  • capacidade de comunicar + sensibilizar sobre o problema
  • participação do público.
  • economia da informação voltada ao commons em detrimento da propriedade intelectual exclusiva.

[3] Novos diagramas organizacionais, novas formas políticas e suas tecnologias

  • movimentos sociais e internet
  • tecnopolíticas e novas formas de organização social
  • democracia digital, participacionismo, inovação cidadã.

[4] Acesso ao conhecimento e os dilemas da abertura:

  • privacidade
  • controle
  • transparência
  • capitalismo cognitivo.
  • participação como governamentalidade: novos saberes X novas formas de governo.

Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

1. Tecnologias Digitais e Vida Social: modos de uso e efeitos das tecnologias digitais em aspectos relacionados à interação social, sociabilidade, privacidade, intimidade, visualidades, identidade, tecnoestéticas.

2. Ação coletiva, Movimentos Sociais e Internet: quais são os usos, as tecnologias e modos de apropriação tecnológica; quais os problemas, desafios e efeitos; tecnodeterminismo X determinação sociopolítica da tecnologia; emergencia de novos atores e práticas políticas.

3. Ecologias de comunicação e conhecimento: como determinadas comunidades/grupos acessam informação; partilham e se organizam; efeitos da mediação técnica na organização do conhecimento local.

4. Sociedade de Controle e tecnologias: vigilância, retenção de dados, profiling, economia de vigilância.

5. Economia da informação e do conhecimento: novas formas de trabalho e produção de valor; propriedade intelectual; acesso ao conhecimento.

6. Metodologias alternativas de pesquisa, ensino e organização social: tecnologia e educação; pesquisa participativa; ciencia cidadã; ciencia ativista; participação social; pedagogia radical; cultura hacker.

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É curioso como neste momento de crise, entramos em contato com as memórias de outros períodos críticos da história. Diante de algumas situações nos últimos meses, tenho uma estranha sensação de que estamos passando por um novo giro na história, e como numa espiral algumas coisas parecem uma repetição. Porém, já estamos noutro lugar, tudo é diferente.

Nessas rememorações tenho pensado muito do final dos anos 90. Governos neoliberais e suas políticas avançavam em toda parte, mas encontravam alguma resistência social. Quem se lembra das lutas contra a ALCA? Dos primeiros Forum Sociais Mundiais (antes de se tornarem uma grande feira)? Dos diversos movimentos sociais que se multiplicavam Brasil afora…Onde foi parar toda aquela energia?

Naquele momento, a memória da derrocada da experiência soviética ainda era um tema na pauta, fala-se muito de crise sistêmica do capitalismo e proliferavam em toda parte iniciativas de economia social, autogestão econômica, cooperativismo, entre outras. Havia todo um debate sobre alternativas práticas ao capitalismo que curiosamente parece que perderam a força diante de governos que em toda America Latina executaram uma agenda paradoxalmente “progressista” (péssimo termo). Porém, ainda que silenciosamente, tudo aquilo segue sendo feito.

Dentre esses reencontros que tive nos ultimos meses, um deles é com as discussões sobre autogestão, economia social/solidária, moedas alternativas. Tema com o qual estive muito envolvido e que por diversas razões fui me distanciando. Acho curioso ver como ele retorna agora. Seria apenas mais um sintoma da crise? E para mim, é aqui que este reencontro dá uma reviravolta interessante pois se recombina com outros temas com os quais estou envolvido hoje em dia. Mas o vocabulário agora é outro. Falamos em soberania tecnológica, produção do comum, tecnopolíticas, ecologia de práticas e saberes…

Só para citar um exemplo. Recentemente, comecei a acompanhar a criação de um nó-regional da FairCoop (https://fair.coop). A discussão que eles fazem sobre moedas alternativas é bem interessante. Utilizam uma criptomoeda inspirada no bitcoin porém modificada por protocolos sociais que inserem a colaboração como variável na geração de valor. Há toda uma discussão ali sobre autonomia, autogestão, desenvolvimento local/comunitário, sustentabilidade, internacionalismo.

Em seguida, vou atrás de alguns sites antigos e redes sociais abandonadas. Numa deriva no ciberespaço, como nos tempos em que a livre navegação era possível (quem se lembra que utilizavamos o termo “navegar” e éramos internautas, antes de virarmos usuários), encontro alguns grupos interessantes, como o bom e velho Znet (https://zcomm.org). Que emoção! Site simples, wordpress com cara de puro html.

Fiquei me perguntando, será que os outros grupos ainda estão por aí? Os meios  de comunicação entre os movimentos que pegaram o início da internet transformaram-se drasticamente nesses ultimos 10 anos (o Youtube é de 2006!). Tivemos um processo paradoxal. De um lado a mulitiplicação dos canais (email, redes sociais, sms, whatsapp, telegram, e em cada um deles grupos e subgrupos) dando a impressão que construíamos um rizoma, com arquitetura distribuída. Mas não, era pura dispersão. De outro, novas camadas de hierarquização e centralização que modulam algoritmicamente toda nossa interação, submetida a critérios mercantis e à vigilância estatal e corporativa. É o capitalismo de vigilância (Shoshana Zuboff); a sociedade de controle (Deleuze)….enfim, formas renovadas de sujeição social e servidão maquínica.

Ao invés de nos organizarmos de maneira distribuída, somos organizados em nossa aparente dispersão pela capacidade de centralização desses serviços.
É incrível como o Facebook destrui nosso ecossistema digital. Pra ser sintético: o Facebook e todos os condomínios digitais correlatos, destruiram a internet como uma possível cidade cosmopolita. Essas corporações são hoje parte do nosso problema.

Por fim, neste pequeno passeio fui me dando conta de tantas coisas, de tantos mundos que foram ficando para trás. Tal sensação é reforçada por todos os acontecimentos políticos de 2016 (golpe parlamentar etc), que de maneira muito direta chamaram nossa atenção para transformações profundas que estão ocorrendo em nossas sociedades muito abaixo do nosso radar. A barbárie é só o cotidiano mesmo. Mas é ai também que surgem as criações e as longas ondas com grande capacidade de propagação. Nos ultimos tempos, apenas ficou mais visível uma nova e assustadora topografia que estava sendo lentamente construída.

Isso me faz pensar na cozinha, no trabalho de manutenção e sustentação da vida. Talvez, a tecnologia mais necessária neste momento seja mesmo as tecnologias organizacionais e toda a lentidão necessária para fazer comunidade, para produzir o comum em comum. Mas não o antigo comunitarismo, nem os comunismos e socialismos. Serão outras criações capazes de aprender com todas essas formas, e também com o capitalismo.

Fico com uma sensação de “back to basic”. Não confundir com “um retorno às bases”. É outra coisa, é cuidar do básico mesmo, a começar pela capacidade do encontro com o outro. Quais são as infraestruturas que precisamos para dar suporte às formas de vida que desejamos?

Como alguns emails trocados entre os professores da EFLCH/Unifesp acabam circulando para além das listas em que foram originalmente escritas, vou adotar a prática de publicizar algumas mensagens que escrevo em contextos de crise. Evidentemente, farei isso levando em conta a não exposição de terceiros que por ventura estavam envolvidos na conversação dentro da lista. A mensagem abaixo foi escrita no âmbito de uma discussão entre professores sobre a ocupação estudantil realizada no segundo semestre de 2017, durante os protestos contra a PEC241/PEC55.
——– Forwarded Message ——–

Subject: Re: [Docentes.EFLCH] detalhes do processo negociação c/ ocupação
Date: Thu, 1 Dec 2016 13:11:10 -0200
From: Henrique Parra
Car@s,

A comunicação pela internet costuma gerar muito ruído. São diversas as
cartas produzidas pelo Movimento de Ocupação, além de posts em
grupos/paginas do FB etc, gerando facilmente confusão nas
interpretações. O mesmo acontece com nossas mensagens em diferentes
canais. A conversa presencial é sempre melhor para minimizar mal
entendidos. Como sabem, o trabalho da escrita e interpretação textual é
uma tarefa infinita. Ainda assim, quero compartilhar mais um relato e
mais um ponto de vista.

Pelas mensagens enviadas pelos ocupantes entendo que o campus estará
reaberto a partir desta sexta-feira, e que nós professores poderemos nos
reunir com nossas turmas a partir de segunda-feira. A Congregação se
reunirá na segunda-feira de manhã para analisar a situação. Também foi
chamada uma reunião dos professores para esta sexta-feira (pelo chamado
entendo que não se trata de uma assembléia), efetivando a reabertura do
campus e também criando uma possibilidade de encontro presencial entre
nós. Este é o cenário que vejo para o curto prazo.

Neste semestre ministro a disciplina do estágio supervisionado III.
Muitos dos alunos estão com contratos firmados com museus, ONGS,
escolas. Em razão de demandas dos estudantes (devido a dinâmica do campo
do estágio) realizei ontem supervisão individual no CEU Pimentas,
utilizando o espaço da biblioteca. Um bom numero de estudantes
compareceu, conforme o agendamento que realizamos. Outros não puderam ou
não precisaram vir (e me enviarem suas justificativas).

Em um intervalo nas supervisões fui ao campus onde acontecia a reunião
da D.A., professores e os ocupantes. Não fiquei para a reunião, mas
queria ir lá para prestar solidariedade aos colegas professores que
tentavam duramente construir alternativas. Fiquei alguns minutos e logo
voltei ao CEU. Na saída encontrei com os estudantes que estavam chegando
de onibus naquele momento de Brasília. Conversei com eles e ouvi os
relatos sobre a experiência da manifestação e da violenta repressão
policial que sofreram por lá. Também manifestaram preocupação com a
busca por saídas para a ocupação.

Minha impressão da situação: os problemas do nosso campus refletem
claramente todas as dificuldades políticas que temos neste momento
histórico. Não há grupos/posições homogênas, planos de curto ou longo
prazo, nem canais institucionais com ampla capacidade de operação. As
pessoas (individualmente ou em seus pequenos coletivos) estão agindo de
maneira impulsiva e falta muita capacidade de diálogo e construção do
comum, mesmo entre aqueles que parecem compartilhar os mesmos valores e
princípios ético-políticos.

Sigamos na busca por alternativas coletivas. Encontrar nossos estudantes
é a melhor maneira de desconstruir o que de fora parece ser um jogo de
posições constituídas, binárias e organizadas. Atualmente, nem
estudantes nem professores seriam capazes de produzir, de cada lado, um
documento capaz de sintetizar uma tomada de posição homogênea sobre a
situação. Infelizmente, nossos espaços de representação estão todos
corroídos (da EFLCH ao Congresso Nacional). Por isso, parece-me oportuno
a possibilidade do encontro físico para produzir um terreno minimamente
comum de entendimentos sobre o qual possamos reconstruir nossas
instituições. Não será pela força, nem por mecanismos de autoridade
externa que seremos capazes de ativar nossas frágeis instituições, muito
menos de fazer universidade.

Por fim, uma hipótese otimista diante dos problemas nacionais e locais
que enfrentamos. Talvez, possamos apostar numa capacidade de invenção e
confiança na busca por novas formas de organização e de construção
institucional. Quem sabe, no meio de todo esse caos, no qual a EFLCH
parece ser uma antena de antecipação das reconfigurações da política,
possamos gestar outras formas de fazer política. Sempre achei que os
conflitos de 2012 eram prototípicos dos problemas que estavam por vir no
cenário nacional. E eles aconteceram. De repente, agora, na borda em que
estamos, ao invés de antecipar o desmoramento (que já aconteceu Brasil
afora), possamos inspirar outras alternativas.

Há braços,

Henrique Parra

A Airbnb, empresa internacional de intermediação de imóveis na web, com um portfolio de milhões de clientes e imóveis, acaba de mudar sua política de credenciamento. Achei muito interessante que ela propôs a obrigatoriedade de uma política de não discriminação (nacionalidade, gênero, religião, orientação sexual etc). Ou seja, se você quiser continuar oferecendo seu imóvel pela rede Airbnb, e fazendo business, terá que aceitar a política de “compromisso da comunidade”. Aqui, não se trata de apontar os problemas relativos a evasão de impostos, modelos de concorrência, capitalismo cognitivo, etc. Parece-me um caso relevante pra pensarmos nas relações entre ação econômica e mudança sociocultural: https://www.airbnb.com.br/help/topic/533/nondiscrimination

Todos têm (ou deveriam ter) direito à defesa e a presunção de inocência, requisitos mínimos de um processo legal em respeito aos direitos humanos sob o Estado de direito.

No Brasil, um dos efeitos mais assustadores da atual lógica de justiciamento moral (vale tudo para condenar os inimigos) e do punitismo generalizado (punição e prisão para todos os desvios à norma) é a erosão de nossos direitos civis mais básicos. Tão paralisados estamos com o desmonte das frágeis conquistas sociais da última década, que pouca atenção estamos dando ao avanço veloz do estado policial que normaliza o Estado de Exceção.

A lei anti-terrorismo no Brasil acaba de fazer pelo terror sua primeira vítima fatal http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/10/1823190-suspeito-de-terrorismo-tem-morte-cerebral-apos-ser-espancado-em-prisao.shtml É bom lembrar que manter os presos vivos e com dignidade (independente da condenação) é responsabilidade do Estado. O que pode então significar a morte de alguém preso preventivamente?

Achei chocante a notícia da morte de Valdir Pereira da Rocha, 36, morto na cadeia um dia após sua transferência. A despeito da gravidade das acusações que pesem sobre os 12 cidadãos brasileiros detidos na véspera das Olimpiadas, a prisão preventiva desses suspeitos está servindo de balão de ensaio para definir as fronteiras da aplicação da lei anti-terrorismo no Brasil.

O Estado brasileiro e o Ministério da Justiça devem à sociedade esclarecimentos urgentes sobre a morte deste preso e sob a situação dos demais suspeitos detidos na Operação Hashtag. Depois da anulação do julgamento do Carandiru, sob a justificativa de que os 111 presos foram mortos pela polícia em legítima defesa da polícia, fico com a impressão de que Guantânamo é aqui!

Talvez, seja o momento da luta pela defesa dos direitos sociais (por exemplo, contra a PEC241) incluir em sua base todos aqueles que nunca tiveram acesso à qualquer direito no Brasil, e que por isso, não são aliados na luta contra o desmanche do inacabado. Os mais vulneráveis, os mais excluídos deste País não entram na luta contra governos ilegítimos não porquê não percebem o que está em jogo, mas porque muitos desses direitos quase não lhes dizem respeito, pois para os mais excluídos o Estado só se faz presente como polícia e judiciário punitivista.

Estamos num momento de fazer todas as lutas. Pura conjunção “e”. Nenhuma luta é mais importante do que outra. Democracia Real com profunda transformação do sistema eleitoral e representativo, e democratização do judiciário, e reforma tributária efetivamente distributiva, e universalização dos direitos sociais (Saúde, Educação, Moradia…), e direitos humanos para todos os humanos, e um meio ambiente saudável e sustentável, e pela liberdade de expressão, e pela igualdade de gêneros em sua diversidade…são muitos e…e…

A democracia e seus direitos são para tod@s ou já é sua própria negação.

 

Estranho momento. Mistura de estado de exceção, normalidade societal e democracia operacional. Planeta feito de vários mundos e muitas temporalidades. Fico tentando juntar as peças pra sentir onde nossa energia pode criar maior potência. Difícil conciliar as batalhas quando num dia debatemos o avanço da governamentalidade algorítmica e da guerra cibernética; e noutro dia precisamos explicar a falácia do projeto Escola sem Partido. Tudo ao mesmo tempo agora.

Hoje foi a última aula do curso que ministrei na Unifesp, disciplina do estágio supervisionado, formação de professores de sociologia para a educação básica.

O semestre começou com significativo atraso por conta do retorno do campus para o Bairro do Pimentas (Guarulhos), no prédio recém finalizado. As disciplinas do estágio são muito afetadas quando o calendário universitário não está no cronograma normal, pois perdemos a sincronia com o ritmo das aulas nas escolas da educação básica, onde os estudantes fazem os estágios. Mas enfim, tanto nas escolas como na universidade já é raro termos um semestre normal.

Este desencontro entre o calendário de aulas na universidade e nas escolas criou algumas dificuldades para a execução da disciplina. Mas hoje, tendo concluído o semestre, posso dizer que terminamos melhor do que começamos. No início das aulas havia um certo clima de desmobilização e preocupação com o rumo do curso, mas ao poucos, a turma foi ganhando densidade, soluções foram inventadas e no final do semestre os trabalhos realizados e apresentados pelos estudantes surpreenderam positivamente. Mesmo que muitas coisas sejam imprevisíveis em nossos cursos, na minha experiência nesta disciplina há um padrão que até agora se repete: os trabalhos finais realizados sempre superam as expectativas e dificuldades do percurso.

Num contexto de crise política que estamos vivendo, diante das muitas tentativas de destruição da universidade pública e gratuita, face as ameaças mentirosas da “escola sem partido”, é muito gratificante ver uma nova geração de estudantes na universidade, muitos deles oriundos da escola pública sim, criando projetos educativos com temas ousados e materiais criativos para serem trabalhados com os jovens das escolas. Diante das forças autoritárias e reacionárias que agora dão as cartas, minha sensação é que elas são uma reação desesperada diante de uma revolução molecular que está acontecendo na juventude, pulsando formas de vida que por hora escapam ao radar da macropolítica. Oxalá, essa potência do novo cresça; não há lei capaz de conter essas vidas que brotam. Obrigado aos alunos pela companhia em mais este semestre.

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Hoje é um triste dia para nossa democracia.
Aproveito para avisar que deixarei de usar o Facebook para a comunicação interpessoal.
Considero esta plataforma parte do nosso problema. Precisamos fortalecer meios de comunicação mais livres, autônomos e não-comerciais.
Os efeitos do Facebook sobre a Internet são terríveis. Quero que a Internet seja uma cidade de direitos, não um condomínio vigiado. O Facebook, as Telecoms (ao tarifar cada vez mais nossos dados), as instituições policiais e do judicário (ao transformar a internet num espaço vigiado e militarizado), as corporações midiáticas (ao controlar e monetizar nossa comunicação), são todos parte do problema que temos diante de nós. É urgente a democratização dos meios de comunicação. Cada um de nós pode ser mais do que um espectador. O mesmo vale para nossa ação política.
Não é fácil sair da zona de conforto. Mas posso garantir que há vida lá fora. A construção de um novo sistema político, além das novas lutas organizativas, também é feita de uma micropolítica das escolhas individuais cotidianas. Aproveite o triste dia de hoje para fazer uma escolha feliz de liberdade em qualquer domínio de sua vida.

Fonte imagem: de Juana Medina – http://www.cartoonmovement.com/p/2825 – Arab World Fights for Freedom.

Liberdade-na-Internet

A internet está sob séria ameaça no Brasil. Não é exagero. De um lado, há novos projetos de lei propostos pela CPI dos Cibercrimes que visam ampliar o controle e cercear a liberdade de expressão e conhecimento dos internautas. Eles atualizam uma mentalidade securitária e policial, transformando todos os cidadãos em suspeitos potenciais. Ao mesmo tempo, há novos projetos de lei que visam estabelecer franquias (limites) para a quantidade de dados trafegados no uso da internet, transformando a internet numa grande central telefônica.

Ambos os projetos subvertem princípios fundadores do funcionamento da Internet tal qual a conhecemos. E isso só é bom para quem quer ganhar muito dinheiro com ela ou para quem quer controlar a liberdade de expressão e conhecimento. Para que a internet possa ser um ambiente mais próximo de um espaço público, com direito à livre circulação, expressão e acesso à informação, ela não pode funcionar como uma zona militarizada onde precisamos apresentar nosso CPF pra qualquer clic; nem muito menos operar como uma chamada telefônica onde precisamos contabilizar os minutos que permanecemos assistindo um video ou quantos textos leio na rede. Já imaginaram como será o uso que faremos da internet sob essas condições?

Faço ainda outro alerta. A possibilidade de tarifação da Internet com franquia de dados, visa preparar e acostumar o internauta para a próxima geração tecnológica de transmissão de dados por radiofrequência: do Wifi para o LTE[1]. Com esta combinação, a Internet estará morta e enterrada.

O momento exige a formação de um amplo movimento social (que não seja restrito às organizações civis especializadas nessa temática), para que possamos resistir e criar alternativas ao desmonte da Internet. Ao mesmo tempo: #internetlivre e #bandalargaparatodos, para democratizar o direito à comunicação e ao conhecimento, contra o estado de exceção e o vigilantismo; contra o controle corporativo de nossas comunicações.
Criemos #redesdaliberdade

———

[1] sobre as atuais disputas entre padrões tecnológicos no IEEE-802 veja a tese de doutorado de Diego Vicentin

fonte imagem: http://outraspalavras.net/outrasmidias/wp-content/uploads/2013/07/Liberdade-na-Internet.jpg

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fonte imagem: http://www.wallpaperawesome.com/wallpapers-awesome/wallpapers-strange-funny-weird-crazy-absurd-awesome/wallpaper-weird-facebook-like-matrix.jpg

 

Com a velocidade dos acontecimentos políticos das ultimas semanas, este post começou e foi abandonado algumas vezes. Mas como algumas coisas não caducam, ao contrário, estão apenas começando, descreverei algumas ideias provocadas pelas repercussões relacionadas ao vazamento das gravações telefônicas das investigações da Lava Jato; e do uso recorrente das medidas da prisão preventiva.

Vou analisar um pequeno recorte sobre o ambiente sociocultural e político emergente, que guarda uma discreta relação com os modos de existência que estamos constituindo em nosso uso cotidiano das redes sociais digitais. O percurso segue um argumento foucaultiano: há uma profunda relação entre os modos de subjetivação atuais, os regimes de produção da verdade e as formas de exercício do poder. Vou apontar rapidamente esta relação sob três aspectos: (1) relação entre interioridade e exterioridade (nossa vida interior e pública); (2) informação digital, rastreabilidade e produção da verdade; (3) simulação como regime de antecipação

Tais conexões podem ajudar a compreender, de uma perspectiva complementar e pouco explorada nas reflexões sobre nossa cultura política, porque o vazamento ilegal dos grampos telefônicos e o uso corriqueiro de uma medida de exceção como a prisão preventiva, não causaram grave espanto na sociedade brasileira. Argumentarei que, no que diz respeito aos modos de vida e estilos de pensamento que estamos constituindo em nossas vidas tecnicamente mediadas, essas práticas da polícia e do judiciário, estão amplamente disseminadas e enraizadas em nosso cotidiano através de nossas próprias ações no mundo digital.

1. Interioridade e Exterioridade

Cada vez mais as pessoas experienciam nas redes sociais um regime de visibilidade em que a “mostração” de si torna-se um imperativo social. O registro e a disponibilização voluntária de informações pessoais sobre diversos aspectos da nossa existência tem efeitos importantes. Há uma gradual erosão (e uma reconfiguração) das fronteiras entre o público, o privado e o íntimo; e instala-se uma princípio de transparência que pretende fazer coincidir a expressão visível do “eu” nas redes sociais com uma ideia de “verdade” ou “autenticidade” daquela pessoa. O aprofundamento dessa dinâmica implica, em última instância, numa ficção identitária fundada no colapso de qualquer diferença entre a interioridade (pensamentos, sentimentos etc) e nossa exterioridade. Isso dá lugar à exigência impossível de um “eu” único, coerente, transparente, verdadeiro e funcional.

O desejo dessa fusão seria o fim de qualquer possibilidade de autonomia subjetiva e de liberdade política. De certa maneira, observamos essa dinâmica operando tanto nos argumentos e práticas do judiciário (e MP) – na condução, por exemplo, dos grampos telefônicos da Lava Jato – quanto nos modos de existência cibermediada e na validação ou reconhecimento dessa prática do judiciário. Equiparar falas privadas, pensamentos ou emoções compartilhados com pessoas próximas à ação concreta no mundo é um absurdo. Do ponto de vista da teoria do direito, as implicações dessa erosão são tão ou mais complexas, uma vez que as distinções entre interioridade (pensamento, intenção etc) e ação no mundo (exterioridade) são um importante elemento organizador do direito.

Essa é a política imanente da ficção da transparência radical, inscrita como prática cotidiana em nossa cultura de uso de redes sociais como o Facebook. Um princípio de identidade, autenticidade e absoluta coincidência entre nossos rastros digitais, a produção visível do “eu” e nossa interioridade.

 

2. Informação digital, rastreabilidade e produção da verdade

A crescente mediação das tecnologias digitais, somada à proliferação do dispositivos de registro e monitoramento, faz com que o volume de dados, imagens e sons disponíveis sobre qualquer pessoa seja muito grande, dando forma a uma paisagem informacional que produz nossos vários “eus”, nossos corpos informáticos, nossas vidas digitais. Com este volume de informações é possível reunir fragmentos sobre qualquer ato, qualquer pessoa e produzir o fato que quisermos. “Diga-me uma tese qualquer e comprovarei-a com dados” é uma máxima do mundo do big data. A capacidade de análise computacional ampliou o antigo “diga-me com quem andas e direi quem tu és”; agora é possível indicar, probabilisticamente, o que podes pensar, o que podes desejar, ou o que podes potencialmente fazer. A confecção do nosso “perfil”, realizada por nós mesmo em nosso uso cotidiano das máquinas digitais, resulta num amálgama de atitudes potenciais. Um perfil – já não falamos em uma “identidade” na rede – é o conjunto dessas disposições (atitudes e decisões comportamentais possíveis).

O mito da transparência radical, descrita no ponto acima, quer fazer coincidir o ser individual (dotado de um corpo físico) com uma expressão única e coerente de um perfil digital. Mas no universo das redes digitais, também somos educados a aprender que um conjunto de dados organizados de maneira aparentemente coerente, são suficientes para produzir uma realidade.
Todas as informações que lemos em nossa existência cotidiana nas redes sociais são pré-selecionadas em função no nosso perfil digital graças ao trabalho dos algoritmos. A produção do nosso perfil no mundo digital é completamente alheia ao contexto semântico ou social de origem das mensagens. Em outras palavras, o sentido (hermeneutico) da ação pouco importa para a máquina. O que está em jogo é nossa existência dividual: através do mapeamento de nossas expressões pré-individuais (a-semânticas) somos enquadrados em categorias supra-individuais. Da mesma forma, as informações digitais pré-selecionadas que compõem nosso universo de leitura, irão constituir uma realidade sempre fabricada e parcial para cada um de nós.

Na medida em que o funcionamento dos algoritmos nas redes sociais está orientando à formação de clusters (ou guetos) de comportamento social, produzidos de forma a amplificar a homogeneidade, pois isso é fundamental para o marketing dirigido, somos discretamente educados a tomar um conjunto pré-selecionado de informações como melhor expressão da realidade.
Aqui também, aprendemos a escutar os audios vazados, a ler trechos de documentos e a organiza-los de maneira coerente. Notícias de anos anteriores são alinhadas numa cronologia perfeita para explicar os fatos do presente. Numa dimensão a coordenação e a seleção desses materiais é realizada por agentes humanos e organizações: o aparato do judiciário, policial e midiático. Mas nas redes sociais este efeito é amplificado pela mediação das plataformas, onde nos habituamos a fazer exatamente a mesma coisa. Aprendemos a produzir nosso próprio real e a legitimá-lo com os “likes” de nossos iguais. Em suma, já estamos educados na manufatura e na legimitação dos novos regimes de produção do real e verdadeiro.

Esta é a outra parte da política imanente das redes sociais corporativas: dados informáticos descontextualizados devem ser traduzidos em expressão do real e verdadeiro. Navegamos, ou melhor, somos conduzidos num mar informacional, guiados por impulsos, fagulhas digitais, que nem somos capazes de interpretar (o sentido já não importa). Alias, a metáfora da navegação, antes tão popular no início da internet, atualiza outro sentido esquecido: a cibernética. De origem grega, kubernetes pode ser traduzida por piloto, governo, controle. Nas palavras do matemático Wiener: “a ciência da comunicação e do controle em máquinas e animais”.

 

3. Simulação do real e ação preventiva

Por fim, o terceiro elemento nos indica que o conflito atual já está acontecendo noutro lugar. É uma guerra de velocidades, de antecipações. O poder simulacional é a capacidade de produzir cenários futuros, a partir da análise e coordenação de fenômenos potencialmente emergentes, e que tenham o poder de gerar efeitos de realidade no presente. As decisões sobre os juros bancários tomadas com base nas expectativas futuras do “humor” do mercado financeiro é um bom e antigo exemplo.

Nas redes sociais corporativas também aprendemos a gerir nosso perfil no presente em função do que projetamos para o futuro. Tornamo-nos gerentes das impressões que esperamos provocar em nosso futuro empregador ou naquela pessoa que desejamos amorosamente conquistar. Além de fundirmos a vida íntima com a vida pública na gestão de nossos perfis (conforme o ponto 1), aprendemos a fazer isso segundo um modelo de eficiência orientado à maximizar nossas disposições potenciais.

Somos contratados por aquilo que potencialmente podemos oferecer, nos apaixonamos pela dimensão virtual daquele perfil etc. A slogan “Você S/A” é um ótimo exemplo. Este modo de racionalização econômica da vida, tão bem descrito por Foucault, adquire agora outra dimensão quando se combina à interação humano-máquina. Vivemos a governamentalidade algorítmica (cf. A.Rouvroy), e com ela também aprendemos em nossa prática cotidiana tecnicamente mediada, a reconhecer os potenciais de um perfil (de um indivíduo) ou de uma situação.

Esta é a terceira parte da política imanente das redes digitais corporativas. Conferimos a uma simulação, entendida aqui como uma configuração específica de uma situação potencial, portanto múltipla e não resolvida, o estatuto de uma situação real. Tal cultura, somada ao frágil reconhecimento de nossos direitos, reforça ainda mais a ideia de que é legitimo prender alguém preventivamente.
É com essa mesma justificativa que é possível realizar a guerra preventiva contra nações inimigas, contra os terroristas em potencial, ou mesmo aprisionar políticos adversários. Por razões complementares a este argumento, é importante lembrar que cerca de 40% da população carcerária brasileira (a 4° maior do mundo) está presa sem ter sido ainda julgada. Para os pobres a prisão preventiva do estado de exceção já é a regra faz tempo.

Finalmente, o que passa desapercebido na articulação entre os pontos 1, 2 e 3 são os efeitos negativos de suas articulações: reconfiguração das fronteiras entre interioridade e exterioridade; o registro infinitessimal dos rastros digitais de nossas vidas; emergência de um regime simulacional equiparado à realidade. Tudo isso, num contexto de expansão de políticas securitárias e medidas de exceção que ameaçam os direitos civis, encontram solo fértil para converter todos os cidadãos (usuários da internet, mas não apenas) em criminosos em potencial.

Diante do colapso entre interioridade e exterioridade, qualquer pensamento privado codificado no histórico permanente de nossas interações digitais, pode ser simulado como indicador da intencionalidade, evidência probabilística de uma ação futura. Neste cenário, a pressuposição de inocência, princípio constitucional fundamental, torna-se lógica e tecnicamente impossível. Todos são suspeitos por antecipação. A condenação, neste caso, é apenas o resultado arbitrário da aplicação seletiva da punição, definida em função da distribuição das forças políticas num dado momento histórico.